quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Calma para não errar!

Encontrei recentemente uma amiga de longa data. Entre um café filosófico e atualizações do correr da vida, ela me pergunta:

- Como você consegue lidar com seus erros?!

Depende... alguns eu dou uma leve risada e auto me chamo de tonta rs. Outras vezes fico chateada porque poderia ter prestado atenção. Mas no geral tento melhorar na próxima, e ás vezes vou errar de novo, mas esperando que numa porcentagem menor.
Por que?

Ela me olhou tão pensativa e disse:

- Porque eu não posso, não quero e não suporto a idéia de errar novamente no que lhe contei ( assuntos da vida).

- Como assim? Porque esta louca cobrança? Inevitável. Em algum momento todos erram. Ilusão demais pensar assim.

- Porque eu tenho pressa. Não posso ficar errando sempre. A vida já me cobra por si só. Se eu acertar mais, serei mais feliz! Entende?!

- Não entendo. Porque o mais legal da vida são os imprevistos. Da forma que diz, necessita de controle de tudo, e mais ... sobre os outros?!

Esta conversa foi longa. Ninguém tinha a verdade nas palavras. Mas acho que a liberdade de colocarmos na mesa nossas dúvidas e aflições em conversas livres sem intenções de  “ quem manda em quem”... poucos a tem.
Prestei atenção profunda em cada frase da minha amiga, e não podia deixar de devagar ao mesmo tempo na minha mente certos pensamentos que vinham como comentários abaixo daquilo que ela explicava.

Esta necessidade de não errar está tão pesada nos dias atuais, que fico assustada se realmente as pessoas tem certeza se elas se acham humanos ou outra coisa de inteligência artificial que não estou sabendo .
Esta prepotência humana é o que mais me incomoda. Esta inserido tantas ilusões de não posso errar do tipo bem sutil:
- Não posso envelhecer. Preciso aparentar menos idade da que tenho. Preciso estar sempre feliz. Preciso ser alguém de sucesso. Preciso antes dos trinta anos: ser independente, com carro, casa e se possível uma família em breve, ok?!
Serei contratado se apresentar menos erros que meu colega.  E se erra, por favor, não mostre para mim, porque já basta os meus erros a esconder ou resolver.
Desculpe, mas não tenho tempo para falar sobre isso. Desculpe mas não tenho paciência para aquilo ou isto.

Desculpe, mas não tenho nem tempo para conhecer você...

Confesso que esta ultima frase é o que mais me choca nas pessoas de hoje.
Não se tem tempo para nada. As poucas pessoas que se dão este tempo, tem que fazer um esforço bem louco... para não se contaminar com este : tempo é dinheiro.
Sempre tive o melhor slogan de como viver a vida bem. E veio da sabedoria antiga de meu pai ( graças): Faça as coisas com calma. Vai com calma. Passeie com calma. Fale com as pessoas com calma. Coma com calma. E conheça as pessoas com calma.

Sempre ouvi isso desde criança. Quando ele me via fazendo algo nas pressas, logo eu era repreendida. Faça com calma e sairá tão rápido e bem feito do que fazer com pressa.
Eu pensava: como consegue?!

Meu pai no auge da sua vitalidade... trabalhou anos numa borracharia perto de casa.
Um dia sai mais cedo da escola e fui passar na borracharia para irmos juntos para casa almoçar.
Chegando lá, sentei em um dos pneus que estava em um canto que poderia ter uma visão privilegiada de meu pai em ação.
Pois bem, foi então que vi em prática tudo que meu pai falava do slogan: Tenha calma.

O caso era que tinha uma carreta com 4 pneus para trocar. Mais dois carros passeios e uma Kombi. Lembro que ele teria no máximo 1 hora para fazer isso tudo, pois todos os motoristas estavam com pressa. E detalhe: meu pai trabalhava sozinho. O ato de tirar o pneu, trocar  a câmera de ar ( que na época , os carros antigos tinham), arrumar a câmera, testar, colocar de volta no pneu e este no veículo... incrivelmente ele fazia com calma, com precisão e acredite: sem erros!
Meu pai não podia errar no conserto das câmeras de ar dos pneus. Isso custaria a vida das pessoas. – é o que ele me explicava.

Sei que em meia hora ele consertou da carreta e do carro passeio. E chegou no mesmo instante mais dois carros.
E mais interessante que ele sempre ia conversando com os motoristas. Fazendo e conversando. Com a mesma calma do começo ao fim.
No saldo final daquela uma hora que fiquei olhando ele trabalhar de forma única ( braçal e intelectualmente), consertou 9 pneus e todos saíram satisfeitos. Vi o como meu pai era um homem feliz... Feliz por seguir o que dizia e fazia. Lembro que todos os motoristas pagaram a mais para ele. Por tanto cuidado e dedicação.
Depois de todo este serviço ele me disse:

- Depois que almoçarmos, vamos tomar sorvete na padaria. Porque ganhei mais que imaginei.

E quando estávamos saindo, chegou um caminhão. Meu pai tranquilamente disse:

- Camarada... você deixa eu ir almoçar?! É aqui do lado! Servido almoçar?!

- Espero o senhor até duas horas se precisar. Este pneu só o senhor consegue consertar. – disse o motorista.

E mesmo com o cliente esperando. Meu pai comeu com calma. Descansou um pouco. Conversou comigo. Tomamos sorvete... e tudo isso com calma.

Nunca esqueci este dia. Vi meu pai trabalhando tantos outros dias. Mas aquele foi especial porque foi intenso, foi tudo no imprevisto.

Tento levar isso no meu a dia a dia. Tento porque não é fácil. Faço parte de um outro mundo, outra geração tão diferente do meu pai.

Mas perguntei anos depois... na minha fase adulta, se ele já tinha errado em algum pneu.
Ele pensou um pouco e disse:

- Não. Porque quando eu via que o pneu não podia ser arrumado eu avisava o motorista. As vezes ele aceitava outras não. E quando não, ele ia em outro. O outro arrumava algo que não podia ser arrumado e ai acontecia o acidente. Semanas depois o mesmo motorista voltava e me contava o que tinha ocorrido. Então, o erro não era meu. Ele não acreditou na minha palavra e decidiu em outro. Livre é ele.

Mesmo depois de aposentado. Sempre parava carros na frente de casa de clientes chamando meu pai para ver os pneus e até consertar. Outras vinham encarregados de firmas da região ( antigos clientes) buscar meu pai para ir até a empresa e ver os pneus das carretas  de carga pesada.

Orgulho é imenso... mas na época não entendia bem tanta solicitação dele.

Crescendo percebi que o diferencial dele não era apenas o resolver rápido o problema... mas o ser honesto, rápido e incrivelmente calmo.


A calma o fazia ver o erro antes de cometê-lo. E sempre foi assim. Em tudo. E acredito que poucos nasçam com este olhar calmo para consigo e a vida. 
Tem gente que oferece: tome um chá, tome um suco, tome não sei mais o que e se acalme.
Pois bem... eu digo: tenha calma com você e de certo a vida terá calma contigo.
E muita calma nesta hora!

1 comentários:

Rafael Cinoto disse...

Viva a calma!!!

Postar um comentário